Isso vai virar um shopping! foto feita em 13 de abril de 2011

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Pequenas curiosidades sobre o vinho, por Carlos H. Coimbra


Imagem: Australian Medievalist

Por Carlos H. Coimbra

Há décadas atrás, os antigos livros de história contavam que a cerveja foi a primeira bebida fermentada produzida por humanos. Dizia-se que foi no Egito, há uns quatro mil anos. 
A informação acima já está ultrapassada.
Os novos livros de história provavelmente contarão que foi o vinho, e não a cerveja, a bebida fermentada mais antiga. Achados arqueológicos dos últimos dez anos têm confirmado isso.
Abaixo, algumas curiosidades, poucas para dizer a verdade, a serem complementadas com livros e, logicamente, a apreciação ao vivo, com moderação.

Curiosidade 1: Arqueologia do vinho
Segundo essas pesquisas, a fermentação do suco do fruto da videira foi provavelmente primeiramente obtida no que hoje é a Geórgia, país do leste europeu. Os primeiros vinhos foram feitos há oito mil anos em vilas neolíticas ao sul do Cáucaso (região de Tbilisi, local que no tempo de Heródoto ficava entre a Armênia e a Sarmátia). Também já foram encontrados traços de vinho de uva misturado a vinho de arroz em escavações na China (região de Jiahu) datadas de nove mil anos atrás.
Até hoje a Geórgia produz vinhos utilizando o método tradicional de fermentação em potes de cerâmica. São potes imensos denominados “Kvevri”. O vinho é fermentado dentro do jarro que é depositado abaixo do solo em um buraco. Você pode encontrar vinhos de Kvevri na internet ou em lojas especializadas (é difícil, mas vale a pena).
Curiosidade 2: A obsessão romana pelo vinho
Na antiguidade, beber vinho era praticamente uma regra nos países do Mediterrâneo, cujo clima favorecia e favorece a lavoura da vitis vinifera. No entanto, o costume era bebê-lo misturado a água e a mel. Algumas colônias gregas foram fundadas ao sul da Itália (Magna Graecia) a partir do século oitavo antes de Cristo. Algumas vezes a Magna Graecia era apelidada de “terra do vinho”, por ter produções de excelente qualidade. Mais tarde, os patrícios do Império Romano se tornaram tão fissurados em beber vinho, que as terras da Itália se tornaram saturadas na monocultura de vitis vinifera, gerando uma crise agrícola e alimentar.
Curiosidade 3: Monges católicos inventaram o vinho moderno
Sem a igreja católica provavelmente não haveria o vinho moderno. Isso porque na Idade Média era necessário vinificar para obter o vinho da missa. Naquela época, muitas técnicas antigas foram perdidas e os monges precisaram experimentar. E, da tentativa e erros, dos claustros alemães nasceram os grandiosos vinhos brancos Riesling e a base para as técnicas modernas de vinificação.
Curiosidade 4: Vinho fino x vinho de mesa
No Brasil, os vinhos são classificados como “vinhos finos” ou “vinhos de mesa”. Os vinhos finos são feitos com uvas viníferas europeias clássicas (vitis vinifera), como a Cabernet Sauvignon e a Merlot, e os vinhos de mesa (que o povo aqui do sul chama de vinho colonial) são geralmente feitos com uvas americanas, como a Isabel e a Bordô. Os vinhos finos, quando adequadamente vinificados, geralmente têm uma estrutura mais complexa que os vinhos de mesa.
Curiosidade 5: A classificação dos vinhos é multidimensional
Há vinhos tintos, rosés, brancos e mesmo âmbar (especialidade da Geórgia e algumas regiões da Itália). Há vinhos secos (quando o açúcar é completamente consumido na fermentação), há vinhos doces (quando as uvas têm um teor acentuado de açúcar, como é o caso daquelas de colheita tardia ou “botritizadas” por um fungo, como é o caso das uvas Furmint que são a base do Tokaji húngaro, ou quando a fermentação não é levada até o fim), há vinhos adocicados (os tais suaves, em que é acrescentado açúcar e geralmente no Brasil fazem parte dos vinhos de mesa), há os vinhos fortificados (em que é adicionada aguardente de uva ou outro tipo de destilado; estes possuem alto teor alcoólico), há os vinhos tranquilos, os vinhos frisantes e os vinhos espumantes (os últimos dois têm borbulhas de gás carbônico decorrentes do processo de fermentação). As uvas vitis vinifera tintas não são somente as Cabernet ou a Merlot. Há uma infinidade: Teroldego, Tinta Roriz, Refosco, Nebbiolo, Syrah, Pinot Noir, Castelão, Tsolikouri, Tannat e por aí vai, cada uma com suas características de acidez, corpo e taninos. Já as brancas viníferas, também as há além da famosa Chardonnay: Furmint, Torrontés, Chenin Blanc, Bical, entre outras.
Vinhos em geral podem ser classificados pelo tipo de uva de que são feitos (se há apenas uma, vinhos varietais, se há uma mistura, vinhos de corte, ou assemblage), mas principalmente pela região de origem ou mesmo subregiões de procedência. Haverá os Bourgogne, mas também os Romanée-Conti que se encontram dentro da Bourgogne na França. E há a classificação geral dos vinhos feitos na Europa (classificados como “Velho Mundo”) e os feitos nas Américas, China, Oceania ou África do Sul (classificados como “Novo Mundo”).
Curiosidade 6: Vinho é elitista, mas não deveria
No mundo há movimentos para dar uma maior naturalidade ao vinho, desassociando-o daquela velha pecha de “bebida chique”, “bebida para poucos”, “bebida das elites”. É lógico que não há como fugir dessa associação nos dias de hoje. Em lugares como Europa ou Austrália, o vinho tem lugar comum como bebida do povo. Mas em países como o Brasil, o vinho é realmente tido como uma bebida elitista. Isso pode ser explicado de muitas formas, mas uma delas é a de que na época colonial os estudantes brasileiros da elite se deslocavam para Coimbra ou Paris e voltavam bebendo vinho e vangloriando a cultura europeia. Um movimento cultural nacional de resistência a isso nasceu para varrer esse aspecto elitista de valorização do alienígena sobre o nacional, iluminando as cantigas e a arte brasileiras e a bebida nacional do povo, a cachaça.
Curiosidade 7: O paradoxo francês
Pesquisas médicas sugerem que a grande concentração de uma determinada substância no vinho tinto, o resveratrol, poderia prevenir problemas cardíacos e de circulação sanguínea, além de ser um antioxidante natural. Há décadas atrás uma investigação científica constatou que apesar de se alimentar de comidas muito gordurosas e de fumarem muito, os franceses viviam mais e melhor que os estadunidenses. A explicação era que apesar dos excessos, os franceses bebiam vinho tinto de forma mais regular que os norte-americanos. A pesquisa também constatou que a longevidade só era alcançada nos casos em que se bebia uma dose limitada de vinho (no máximo duas taças por dia). Acima desta dose, o vinho na verdade parecia ter um efeito inverso, causando desde quadros graves de câncer a outras doenças, principalmente no sistema digestivo e no fígado.
Curiosidade 8: O pequeno produtor
Jonathan Nossiter, diretor dos filmes “Mondovino” e “Natural Resistance”, tem atuado mundialmente junto a outros grupos no sentido de valorizar a pequena produção, o formato orgânico de vinhedo, vinhos bionaturais e a crítica ao lobby de grandes companhias ou instituições que promovam a pontuação oficial de rótulos de forma pouco transparente. A vantagem do pequeno produtor vem da qualidade do vinho, da valorização das característica próprias do solo (o chamado terroir) e da valorização social de agricultores que valorizem a qualidade sobre a quantidade ou sobre o lucro desarrazoado.
Curiosidade 9: Vinhos brasileiros
Por incrível que pareça, o Brasil é destaque internacional em alguns tipos de vinhos, principalmente os espumantes. Diz-se que muitos espumantes brasileiros competem de igual para igual com os caríssimos Champagne (espumante produzido na região de mesmo nome, na França). Mas também os vinhos brancos e tintos brasileiros estão crescendo em qualidade.
Há anos um grande conhecedor de vinhos do mundo, o inglês Steven Spurrier, que organizou em 1976 o famoso Julgamento de Paris, expondo ao mundo que os vinhos produzidos nos Estados Unidos eram tão bons quanto os franceses, vem visitando o Brasil e destacando que nosso país será a próxima grande descoberta dos vinhos mundiais.
O Brasil possui alguns locais muito propícios para o cultivo e vinificação da vitis vinifera. Os principais destaques são o Vale dos Vinhedos, pontos da Serra Gaúcha e a região fronteiriça com o Uruguai, no Rio Grande do Sul. Mas há também grandes surpresas como os vinhos feitos nos arredores de São Joaquim ou no Vale do Contestado, Santa Catarina. Pontos da Serra da Mantiqueira (fronteira de Minas com São Paulo) e Vale do São Francisco (Bahia e Pernambuco) também se destacam. Em particular, os vinhos feitos no Nordeste brasileiro, Vale do São Francisco, são muito peculiares e provavelmente os únicos do mundo produzidos em latitudes próximas ao Equador.
Carlos H. Coimbra (twitter: @carloscoimbra9) é professor e cientista da Universidade Federal do Paraná. Gosta de dar pitacos sobre ciências e cultura geral.
https://jornalggn.com.br/blog/carloscoimbra/pequenas-curiosidades-sobre-o-vinho-por-carlos-h-coimbra

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Bestiário jornalístico de 2015 a 2018, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Bestiário jornalístico de 2015 a 2018
por Fábio de Oliveira Ribeiro
As opiniões expressadas pelos jornalistas durante o governo Dilma Rousseff mudaram um pouco desde que começou o desgoverno Michel Temer. Por isso resolvi fazer esse bestiário.

Governo Dilma Rousseff
Gasolina 2,50: isso é inadmissível, alguma coisa tem que ser feita, o povo não aguenta mais pagar a gasolina mais cara do planeta.
Pedaladas Fiscais: isso é crime de responsabilidade, o motivo para o impedimento existe e a presidenta deve ser afastada do cargo.
Política Externa: o imperialismo canarinho é ridículo, o Brasil não pode se alinhar ao BRICS
Cotas Raciais: não somos racistas, a política de cotas é uma aberração.
Rombo orçamentário: o país tem que cortar gastos sociais, em razão do rombo orçamentários teremos uma nova década perdida.
Juros: a taxa de juros está muito alta e isso impede os empresários de modernizar suas fábricas.
Juízes: o aumento que eles querem é justo e deve ser concedido, Dilma Rousseff criou um conflito entre os poderes ao vetar o reajuste dos juízes.
Bolsa Família: o PT está comprando os votos dos pobres, isso é um incentivo absurdo à procuração dos pobres e faz mal a economia do Brasil.
Bolsonaro: ele pode ser uma alternativa para barrar um terceiro mandato de Lula.
Lula: ele sabia de tudo e será condenado, a popularidade dele é fruto do populismo.
Planeta Terra: é redonda.
Modernidade: aquilo que não temos com o PT.
Desemprego: a redução do desemprego pressiona os salários para cima e prejudica a economia.
Salário Mínimo: está muito alto, prejudica os empresários e arrebenta com a previdência.
Eduardo Cunha: ele deve iniciar o processo de Impedimento, somos milhões de Cunhas.
Manifestações de rua: não é só pelos 30 centavos.

Desgoverno Michel Temer
Gasolina 5,00: os preços estão sendo realinhados, pois o combustível estava sendo subsidiado pelo governo.
Pedaladas Fiscais: o presidente pode fazer ajustes orçamentários, nenhuma irregularidade está sendo cometida.
Política Externa: o alinhamento do Brasil aos EUA é natural, nosso país deveria intervir na Venezuela e na Bolívia.
Cotas Raciais: o fato da maioria dos presidiários e desempregados serem negros e pardos não quer dizer que somos racistas.
Rombo orçamentário: o déficit orçamentário aumentou, mas os bancos estão tendo lucros excepcionais e isso é muito bom para a economia.
Juros: a taxa de juros está elevada, mas isso é culpa da herança maldita do PT.
Juízes: eles tiveram reajuste, mas estão ganhando pouco, o governo deve pagar o auxílio-moradia dos juízes.
Bolsa Família: Japão e Itália estão adotando o programa do bolsa-família e isso fará bem à economia daqueles países.
Bolsonaro: ele não está em condições de ser presidente.
Lula: ele foi condenado e não deve retornar ao poder, a popularidade dele é fruto de uma patologia luso-brasileira (o sebastianismo).
Planeta Terra: tem gente dizendo que a terra é chata.
Modernidade: aquilo que teremos após o fim do governo Temer, mas só se Lula não for eleito.
Desemprego: o aumento do desemprego faz bem para a economia porque acarreta redução de salários.
Salário Mínimo: a redução não prejudica o comércio, mas não vai salvar a previdência.
Eduardo Cunha: ele é um criminoso, está preso e é melhor vocês esquecerem dele (pois só assim ele poderá continuar interferindo no governo Temer).
Manifestações de rua: a passagem está mais cara porque o combustível subiu e o povo deve ficar tranquilo porque a economia vai melhorar.

Os jornalistas brasileiros não apuram fatos. Eles apenas emitem opiniões. O critério utilizado para a construção da notícia não é científico e sim político-partidário e ideológico. Milhares de jornalistas fazem o que é necessário para manter o emprego. Alguns puxam descaradamente o saco do dono da empresa. Há profissionais movidos pelo preconceito de classe ou pelo cinismo, mas também há fanáticos religiosos e racistas despudorados.
Durante o governo Dilma Rousseff a economia do Brasil afundou por causa da crise política amplificada pela imprensa. A situação econômica do país não vai melhorar porque os jornalistas minimizam a imbecilidade da política econômica do desgoverno Temer. Estamos sendo condenados a viver no pior dos mundos. A imprensa fez o país perder a oportunidade de desenvolver sob um governo desenvolvimentista moderadamente nacionalista. E agora apoia um governo que fará o Brasil perder tudo o que tinha de bom e de valioso em troca de uma terra arrasada que garante apenas os lucros dos banqueiros e dos especuladores internacionais.
A reforma que precisamos não é política. O Brasil precisa desesperadamente de uma reforma jornalística. O poder dos donos das empresas de comunicação tem que ser reduzido, a liberdade profissional dos jornalistas deve aumentar. Mas eles devem usar a liberdade jornalística para apurar fatos. Quando se limitarem a emitir opiniões baseadas em critérios político-partidários e ideológicos os jornalistas devem dizer claramente no texto que partido político defendem e que ideologia prestigiaram, caso contrário eles devem ser punidos por um órgão estatal. 
https://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/bestiario-jornalistico-de-2015-a-2018-por-fabio-de-oliveira-ribeiro

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Feliz Ano Novo, por Luis Nassif

Arte de Rosangela Borges
As festas de fim de ano são um bom momento para repensar a brasilidade. A tradição dos romãs, das uvas, do foguetório à meia noite, do bolo de milho e do peru. O “adeus ano velho / feliz ano novo”, que vieram de nossos pais e chegam aos nossos netos.
Por algum momento, ressurge o país ancestral, os valores, as músicas, os costumes que costuraram gerações em torno do conceito de nação. E permite esquecer, por algum momento, a vergonha suprema de ter sido entregue a uma organização criminosa.
Nas rodas familiares, evita-se até a pronunciar o nome de Temer, para não conspurcar a memória de nossos velhos, encarar a suprema humilhação geracional de, pela primeira vez na história, o crime organizado político ter conquistado o poder, impondo-se sobre instituições débeis, homens públicos covardes, procuradores ambiciosos, mídia vendendo opinião como xepa de feira.
Com todas as falhas e virtudes, da monarquia e dos conservadores da República Velha aos desenvolvimentistas de Getúlio a Jango, dos militares pós-64 aos presidentes da pós-redemocratização, com os erros de Collor, FHC, Lula e Dilma, houve toda sorte de presidentes, acertos e erros, mas nenhum representando organizações criminosas como muitos outros países latino-americanos, como o caso do México.
Em determinado momento, entre 2008 e 2012, supôs-se que o Brasil finalmente vencera o subdesenvolvimento e ingressara no campo das nações desenvolvidas. O orgulho de ser brasileiro iluminava cada pessoa no país, dos incluídos pelos programas sociais aos estudantes que saíam pelo mundo em cursos de pós-graduação, dos pequenos empresários do interior aos turistas internacionais.
A queda foi muito rápida, induzida por erros de Lula e de Dilma, sim, mas principalmente pelo golpismo antinacional de quem não se pejou de destruir sistematicamente a auto-estima nacional, superdimensionando todos os erros, escondendo todos os acertos.
Mas, ao som de “Tristeza do Jeca”, de “Que nem jiló”, das modinhas de Carlos Gomes a Chico Buarque, vai aumentando a convicção de que não vencerão. O País resistirá. A imagem que tenho do Brasil, hoje em dia, é o do bom gigante, forte, acolhedor e caído no chão, vítima de um golpe sujo. E, caído, sofre os pontapés dos roubos de Temer, pauladas dos subornos de Padilha, sem conseguir reagir. Mas, a exemplo dos titãs das lendas, sua força reside no contato com a terra. Foi assim no Brasil derrotado dos anos 20, do Brasil amordaçado dos anos 80.
O Brasil sairá desses tempos ferido, humilhado, desmontado, mas com a energia de quem superou todas as crises, a crise da República Velha, a ditadura do Estado Novo, o golpe de 64, a hiperinflação dos 80, o câmbio dos 90, o entreguismo do período tucano, a megalomania do fim do governo petista e, principalmente, a mais espúria aliança antinacional da história, no qual as corporações públicas, juízes e procuradores, se aliaram a uma mídia anacrônica e mercantil e um mercado sem noção de limites, para assaltar o orçamento público e destruir a auto-estima nacional.
Que 2018 marque o início da retomada civilizatória.
Feliz Ano Novo.
https://jornalggn.com.br/noticia/feliz-ano-novo-por-luis-nassif

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Xadrez da grande bacanal pós-impeachment, por Luís Nassif

Esta semana dei uma palestra no encontro da ANDIFES (Associação Nacional dos Dirigentes de Instituições Federais de Ensino Superior). No encontro, a mesma dúvida: qual o prazo de validade do modelo econômico e social que está sendo implementado com a tomada do poder pela organização criminosa liderada por Eduardo Cunha?
Ouso dizer que é curto.
Acompanhe o raciocínio.
Peça 1 - a legitimação de Collor e FHC
Fernando Collor ganhou a presidência por mérito próprio, por ter entendido, antes dos demais candidatos, os novos ventos que surgiam.
No plano interno, a enorme ojeriza à centralização brasiliense, remanescente do regime militar; e a desconfiança em relação aos quadros políticos que se apossaram do poder, no governo José Sarney.
No plano internacional, estava em pleno vapor a onda liberal inaugurada por Margareth Thatcher e Ronald Reagan.
Em todos os períodos da historia, os movimentos políticos internacionalistas sempre necessitaram do endosso das grandes ondas globais. Foi assim no fim da Monarquia até a Primeira Guerra. E no período pós ditadura, com as eras Collor e FHC.
A onda anti-centralização, anti-mordomia, anti-Brasília, junto com o discurso thatcheriano era tão forte que permitiu a Collor cometer enormes erros, desmanchar políticas públicas bem-sucedidas, montar maracutaias com a privatização, mediante o uso das moedas podres. Mas trazer ganhos na abertura da economia.
Já a legitimação de Fernando Henrique Cardoso decorreu exclusivamente do Plano Real. Qualquer crítica a política implementadas era respondida com a mesma frase padrão: você quer a volta da inflação?
Esse jogo permitiu que os erros de FHC, especialmente com o câmbio, levassem o país à bancarrota logo após as eleições de 1998. Com o apoio decisivo da mídia, saliente-se.
Assim, a legitimação durou um mandato. O segundo foi um governo fantasma.
Ou seja, duas experiências internacionalistas, uma que não durou um mandato sequer, outra que durou apenas um mandato, mesmo tendo o enorme handicap do fim da inflação.
Peça 2 - os fatores de (des)legitimação de Temer
O primeiro  fator de deslegitimação é o mais óbvio: Temer é o segundo homem na hierarquia de uma organização criminosa presidida por Eduardo Cunha. Ponto. Seria o mesmo que pretender modernização com um Fulgêncio Batista na Cuba pré-Fidel, um Rafael Trujillo na República Dominicana, um Noriega, no Panamá.
Pode-se conseguir a modernização com um déspota esclarecido. Com um bandido, nunca.
A razão é simples.
·       Toda organização criminosa quer roubar.
·       Processos de mudança abrem enorme espaço para negócios.
·       Subordinando as mudanças ao roubo, perde-se a perspectiva de qualquer projeto estruturante ou legitimador.
Portanto, cortem essa história de que a disputa é entre dois projetos de país: um suposto projeto petista e um suposto projeto liberal da Ponte para o Futuro. É entre a modernidade e o banditismo, que é inerente ao modelo de implementação das medidas previstas na tal Ponte.
Pretender mudanças no ambiente político atual significa abrir o cofre do banco e dispensar  a segurança. É o que está sendo feito, aliás.
Peça 3 - os templários do liberalismo
O segundo fator é a visão extremamente tecnocrática e amadora dos templários do liberalismo.
Há uma estratégia para a guerra e outra para a vitória. A guerra permite toda sorte de radicalização do pensamento, a criação de utopias, o pretíssimo no branquíssimo, a exploração da figura do inimigo, como acontece com todos os arautos das guerrilhas ideológicas.
Já o exercício do poder exige discernimento e avaliação correta sobre os limites da realidade, conhecimento das engrenagens políticas, sociais  e econômicas de um país complexo, o ritmo de implementação etc.
Por aqui, os liberais lançaram diversos esquadrões armados de slogans e, no poder, não colocaram um maestro com conhecimento da posologia, do ritmo de implementação de mudanças, dos limites, das restrições impostas pela realidade. São os slogans se tornando políticas de Estado.
Desde o Cruzado o país é vítima desses cabeções, que julgam que quanto mais radical, mais virtuosa a política. Só ganham sabedoria depois que são expulsos do poder pelos excessos cometidos.
Em toda essa balbúrdia, nenhum aceno social, nenhuma palavra em direção aos direitos de minorias, nenhuma tentativa de legitimação.
Toda a estratégia é de curtíssimo prazo, de olho exclusivo no mercado e de acordo com a visão dos GPS, 3Gs e o escambau do mercado. Consiste em adquirir um ativo, rentabilizá-lo no curto prazo e passá-lo adiante, ganhando na sua valorização imediata.
Está aí o desastre da Estácio de Sá para comprovar os efeitos do padrão GP de rentabilidade máxima.
Hoje, o ativo é o Brasil.
Peça 4 – a economia em 2018
2018 entrará com o seguinte ritmo:
1. PEC do Teto: não passará do primeiro ano
A menos que se aceite como inócuo o desmantelamento de todos os serviços públicos, a PEC do Teto é inviável. Quando as multidões, abraçadas com prefeitos e governadores, entidades sindicais, associações saírem às ruas exigindo remédios, saúde, educação, segurança, o que o Planalto irá fazer? Colocar na frente do lago o Marcos Lisboa e o Monsueto de Almeida com uma calculadora, para explicar a lógica do plano?  Terá as mesmas explicações que o inacreditável Paulo Hartung no Espírito Santo.
2. Os efeitos da lei trabalhista ficarão claros
Uma legislação que precisaria, de fato, ser modernizada, é empurrada goela abaixo, sem garantia de continuidade. O efeito imediato é esse massacre, do qual o caso Estácio de Sá se tornou o exemplo mior.
3. Vôo de galinha da economia
Não adianta os comentaristas da Globo celebrarem 0,1% de crescimento como se fosse recuperação. É a mesma coisa que comemorar o fato de ter parado de cair a popularidade de Temer, quando chega próxima de zero. Trata-se apenas de um processo cíclico, que sucede às grandes quedas. A economia continuará amarrada aos enormes passivos do período de crise, a uma política fiscal e monetária pró-cíclica (isto é, que acentua o ciclo de recessão) sem nenhuma alavanca capaz de relançá-la.
4. A humilhação do país nas mãos de uma quadrilha
A cada dia que passa, mais vai caindo a ficha geral de que o país está nas mãos de uma quadrilha. E, agora, uma quadrilha avalizada pelo único candidato do continuísmo com alguma possibilidade, Geraldo Alckmin.
Peça 5 - as eleições de 2018
O golpe foi uma aliança dos seguintes setores:
PSDB-mídia + Judiciário + Ministério Público + evangélicos + quadrilha de Temer-Cunha
O amálgama que junta juízes, procuradores e deputados é o moralismo pré-histórico da ultra-direita, seu discurso contra direitos das minorias, contra o casamento homoafetivo e todos os avanços das modernas democracias.
Não é por outro motivo que, na CPI da JBS, celebrou-se o acordo dos governistas, poupando a Lava Jato das denúncias de Tacla Duran.  Foi a constatação óbvia de que a Lava Jato é essencial para a manutenção do continuísmo.
A noite do terror não terá vida longa por várias razões:
A implosão do núcleo do golpe
A construção institucional de um país depende da Constituição e de de um conjunto de leis, de práticas. A institucionalidade impõe limites, não apenas legais, mas de conduta a todos os poderes.
Quando se atravessa o Rubicão, como no caso do impeachment, todo esse edifício rui. Se se pode derrubar uma presidente ao arrepio da Constituição, tudo o mais será permitido. Que o diga o excelso Ministro Luís Roberto Barroso, principal padrinho do estado de exceção e da flexibilidade da Constituição.
E aí vira a suruba portuguesa, com procuradores desmoralizando Ministros do STF pelo Twitter, Ministros do STF sendo desmoralizados sem necessidade de ajuda externa, negociatas à luz do dia, na forma de venda de estatais, venda de projetos de lei, venda de proteção, Judiciário colocando adversários em cana (como no caso do ex-governador Garotinho), Conselho Nacional de Justiça (CNJ) punindo juízes legalistas. E cada um tentando puxar a brasa para a sua sardinha e vivendo intensamente como se não houvesse amanhã, não houvesse feios a essa orgia de poderes individuais.
Quando o golpe é conduzido por um poder central - um ditador ou uma corporação, como foi o caso de 64 -, ele se impõe sobre a balbúrdia geral. Quando o golpe é a balbúrdia, se esgota em suas próprias contradições.
O núcleo do impeachment virou de tal modo uma casa da mãe Joana que o presidente quer continuar, o Ministro da Fazenda quer o lugar do presidente, o maior aliado, PSDB, quer lançar candidato, mas não sabe se fica ou se sai, os jornais multiplicam-se em seminários de pouca relevância e alto patrocínio de estatais e, ao mesmo tempo, fingem que criticam o governo, para não se desmoralizar de vez perante os leitores.
Esse é um quadro sintético do que está acontecendo com os vitoriosos do golpe. Completa-se o quadro com a incapacidade de gerar sequer um candidato competitivo para 2018.
A impossibilidade do Estado de Exceção
Se não podem manter o poder pelo voto, manteriam pelo estado de exceção.
No curto prazo, a Lava Jato e o TRF4 dão conta. No médio, não.
A Constituinte de 1988 mostrou o avanço das organizações civis, invisibilizados pela mídia. De repente, como que do nada, surgiram grupos organizados indígenas, negros, de camponeses, de direitos humanos, de quilombolas etc.
Hoje em dia, com o advento das redes sociais, e com o próprio desenvolvimento nacional com as grandes conferências, os grupos de interesse multiplicaram-se. Há organizações de defesa dos deficientes, da Amazônia, dos LBTGs, das mulheres, da educação, da saúde, da assistência social, da ética nas empresas. Cada estado tem seu coletivo, suas organizações próprias, sem contar o sistema tradicional dos sindicatos e associações.
Hoje em dia, mesmo em setores empoderados pela direita - como Polícia Federal e Ministérios Públicos - existem os coletivos democráticos. Mais: todos os movimentos sociais apostam na democracia, esvaziando a tese do golpe preventivo.
Esses avanços, por sua vez, desenvolveram um mercado de opinião publicada – por tal, entenda-se o público classe média midiática -, menos estridente que os MBLs da vida, mas que gradativamente vai se tomando de enjoo com o discurso da indignação vazia e com os preconceitos da ultradireita.
Como já previsto em outros artigos, cada vez mais o primeiro time da imprensa brasileira tenta vestir o figurino do conservador inglês, conservador na economia, liberal nos costumes e discreto no linguajar.
É um movimento lento, que tende inicialmente a poupar o principal aríete da ultra-direita – os abusos da PF e do MPF no padrão Lava Jato -, mas que é irreversível no sentido de combater os excessos radicais.
Tudo isso demonstra uma musculatura e uma vitalidade que torna impossível qualquer veleidade de ditadura de médio ou longo prazo.
A inviabilidade Eleitoral da Ponte
Por outro lado, a Ponte para o Futuro não resiste a um teste de urna. É inviável eleitoralmente.
Não foi o petismo que deu a vitória a Dilma Rousseff em 2014, mas divisão do país entre o anacrônico e o moderno. A cada dia que passa, mais a face do golpe se confunde com as práticas mais anacrônicas.
Ontem, foi a vez do Congresso trazer de volta os manicômios. E há razões para isso. Em outros tempos, os manicômios eram fonte de enriquecimento de diversos coronéis políticos, como o ex-deputado Inocêncio de Oliveira. Sempre foram uma fonte inesgotável para sugar recursos do INSS.
Peça 6 – o fruto da árvore proibida
Com o início da era FHC, o PSDB abriu mão definitivamente das teses modernizantes. Tornou-se um partido rancoroso, sem identificação maior com os avanços sociais e morais. E negociando cada vez mais com lobbies externos, das incursões pioneiras de Pedro Malan no Banco Mundial, e de José Serra com a Nordisk, no episódio rumoroso de licitação de insulina, quando era Ministro da Saúde aos jogos atuais com a lei do petróleo.
Com todos seus defeitos, com todos os erros cometidos, com a falta de visão de Nação, com os erros econômicos da era Dilma, com a leniência da era Lula com mercado e mídia, o PT continua sendo o desaguadouro dos movimentos modernizadores apartidários.
Se num passe da mágica, a Lava Jato, com Temer, PSDB, Gilmar, mídia e a rapa conseguissem eliminar o partido, ainda assim toda essa frente social se manteria unida em torno do partido ou candidato que exprimisse esses valores.
Tudo isso porque deixaram o país provar o fruto da árvore proibida.
Durante algum tempo, o Brasil aprendeu que é possível erradicar a pobreza com políticas bem concebidas, que a redução da pobreza aumenta o mercado interno, produzindo um circulo virtuoso. Aprendeu que possível desenvolver uma indústria da saúde, avançar na educação, participar dos jogos diplomáticos internacionais, criar uma indústria de defesa, remontar a indústria naval.
Podem destruir enquanto tem tempo.
Mas no fundo da memória nacional já foi plantada a palavra de ordem: nós podemos!
https://jornalggn.com.br/noticia/xadrez-da-grande-bacanal-pos-impeachment-por-luis-nassif