Isso vai virar um shopping! foto feita em 13 de abril de 2011

quinta-feira, 23 de março de 2017

Eu, "pejotizado"

Eu, "pejotizado"


Por pouco mais de três anos tive a infeliz experiência de trabalhar não exatamente como terceirizado, mas como "pejotizado", ou seja, obrigado a apresentar notas fiscais de pessoa jurídica para receber, mensalmente, a minha remuneração como editor-assistente do "Valor Econômico".

Só pude trabalhar no "Valor" pela segunda vez, meses depois de ter-me demitido do Estadão, sob essa condição.

De cara me avisaram que quem era contratado entrava numa fila de regularização trabalhista, ou seja, os mais antigos eram os primeiros a ter o privilégio de ter o emprego registrado na Carteira Profissional.

O trabalho na condição de "pejotizado" podia durar um ano, dois anos... Tudo dependeria da condição financeira da empresa.


Também me avisaram que não teria direito ao pagamento de férias, nem a 13º salário, INSS ou FGTS. 

Mas poderia tirar 30 dias de descanso - sem pagamento.

Lógico que, nessas condições, me senti um empregado de segunda categoria, pois, no frigir dos ovos, fazia o mesmo que meu colega ao lado, mas ganhava a metade.

Lógico também que não tinha a menor condição de negociar qualquer coisa, já que o mercado de trabalho do jornalista era, e continua sendo, cada vez mais, um campo de batalha sangrento, onde apenas os mais fortes sobrevivem.

Fiquei uns dois anos nesse limbo até que me avisaram que eu era o próximo da fila dos afortunados que seriam regularizados pela CLT.

Foi então que pedi para ficar mais um ano "pejotizado".

Afinal, esse era o tempo necessário para que pudesse sacar o dinheiro da minha conta inativa do FGTS.

A empresa aceitou na hora.

Um ano depois, fui devidamente "contratado", mas como só trabalhava na empresa havia três anos, e meus chefes não deveriam ainda saber se eu era ou não do ramo, o registro foi "de experiência", por 90 dias.

O contrato definitivo durou seis anos, até eu ser incluído, com mais uns 50 colegas, numa lista de demissões.

Fui dispensado num mês de junho.

Dois meses depois era chamado para ajudar a editar alguns suplementos especiais no mesmo "Valor" que havia me demitido.

Claro que, novamente, "pejotizado". (Carlos Motta)
http://segundocliche.blogspot.com.br/2017/03/eu-pejotizado.html

quinta-feira, 16 de março de 2017

O jornalismo sem jornalistas


Não me lembro de quantas vezes me emocionei com o relato, nas redes sociais, de ex-companheiros de redação que estão sem emprego, vítimas da selvageria de um sistema econômico que desrespeita os mais básicos direitos dos trabalhadores e demonstra uma crueldade doentia.

Demitir uma pessoa é um dos atos de maior violência que um ser humano pode cometer contra outro.

Essa atitude comporta dois tipos de agressão, a psicológica, por rebaixar a pessoa à categoria de cidadão de segunda classe, e a física, pois, em muitos casos, o trabalhador demitido que não consegue um novo emprego fica privado até mesmo de meios para a sua subsistência.

Jornalistas, em geral, são vistos pelo público como privilegiados que exercem uma profissão glamourosa e bem remunerada.

Talvez o estereótipo sirva para uns 5% da categoria.


Na verdade, uma redação, qualquer uma, é tocada pela "peãozada", aqueles profissionais que se matam em jornadas de 12 horas, trabalham aos sábados, domingos e feriados, topam qualquer parada, estão 24 horas à disposição das chefias - e ganham, quando muito, um salário de classe média.

Todos esses ex-colegas que perderam o emprego nestes últimos anos se enquadram nesse perfil, com um detalhe: são excelentes no que fazem, experientes e especializados em temas que demandam muito tempo para serem dominados.

Contra eles pesa ainda o fato de que bons jornalistas não costumam se dar bem em outras profissões, justamente porque investiram todo o seu esforço, físico e intelectual, naquilo que gostam de fazer.

O resultado desse movimento patronal de enxugar ou "renovar" suas redações deu como resultado aquilo que vemos hoje em qualquer um dos jornalões ou portais de notícias da internet: se não o fim do jornalismo, ao menos a sua redução a algo como um panfleto de propaganda mal escrito, primário na forma e no conteúdo, e beirando a idiotice.

Por tudo isso lamento por ver ao que foi reduzida uma profissão à qual dediquei toda a minha vida, e principalmente, pelo sofrimento imposto a tanta gente boa, que não merecia ser tratada dessa forma pelos seus empregadores. 

Força, pessoal, força. (Carlos Motta)

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